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O milho (Zea mays) consolidou-se como a maior cultura agrícola global e um dos pilares da segurança alimentar e da balança comercial brasileira. Contudo, a sustentabilidade do sistema produtivo nacional enfrenta desafios fitossanitários crescentes, decorrentes da pressão de seleção e do surgimento de resistência populacional de Spodoptera frugiperda (lagarta-do-cartucho) às biotecnologias vigentes.

A necessidade de aplicações suplementares de inseticidas eleva os custos de produção, reduz as margens operacionais e impõe novos desafios socioambientais. Diante desse cenário, a incorporação de novos eventos transgênicos, com proteínas de modos de ação inéditos e complementares, juntamente com outras soluções tecnológicas, como o Manejo Integrado de Pragas (MIP), representa uma alternativa relevante para ampliar e diversificar as estratégias disponíveis ao sistema produtivo.

Com produção anual superior a 1 bilhão de toneladas no mundo, o milho é a principal gramínea agrícola da humanidade. O Brasil desempenha papel central nesse ecossistema, figurando como o terceiro maior produtor mundial e responsável por aproximadamente 10% da oferta global do cereal.

Em âmbito nacional, a produção vem superando consistentemente a marca de 100 milhões de toneladas por safra e alcançando um Valor Bruto da Produção (VBP) superior a R$ 100 bilhões, montante superado apenas pela cultura da soja. O avanço da produção nas últimas cinco décadas reflete a transformação tecnológica do setor. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira evoluiu de 19,3 milhões de toneladas em 1976/1977 para uma projeção de cerca de 142 milhões de toneladas na safra 2025/2026. Nesse intervalo, a área cultivada cresceu 92%, enquanto a produtividade média avançou 284%.

Esse salto produtivo esteve associado a uma reconfiguração geográfica e agronômica sem precedentes. O cultivo migrou do modelo tradicional de verão, nas regiões Sul e Sudeste, para o sistema de segunda safra no Cerrado, em sucessão à colheita da soja. Embora tenha viabilizado o uso intensivo da terra e o ganho de escala, a transição para regiões de clima tropical e a manutenção de cobertura vegetal mais abundante e contínua impuseram desafios fitossanitários relevantes ao manejo de pragas.

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Disseminação global e riscos climáticos

Identificada originalmente nas Américas, a espécie foi registrada no continente africano em 2016, e na Ásia, incluindo Índia e China, em 2018. Ainda se discute como a Spodoptera frugiperda chegou ao continente africano, sendo o transporte acidental associado ao comércio e à mobilidade internacional uma das hipóteses consideradas.

Após a introdução em novos ambientes, os impactos podem se intensificar. Estudos científicos apontam que as mudanças climáticas tendem a alterar e, em determinadas regiões, ampliar a pressão geográfica da praga em escala global.

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A evolução da resistência e os desafios de manejo

A combinação entre elevada adoção das tecnologias, desafios associados à implementação consistente das estratégias de refúgio e a disponibilidade contínua de plantas hospedeiras intensificou a pressão de seleção sobre as populações da praga. Trata-se de um processo de seleção biológica amplamente documentado na literatura agronômica.

A partir de 2014, bases internacionais, como o Arthropod Pesticide Resistance Database (APRD), e pesquisas locais passaram a registrar redução na sensibilidade da Spodoptera frugiperda a determinadas proteínas expressas na planta. Atualmente, pacotes tecnológicos comercializados no País apresentam perdas gradativas de eficácia de campo, demandando intervenções complementares para a manutenção do potencial produtivo.

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Horizontes tecnológicos e diversificação das estratégias de manejo

A sustentabilidade do controle da Spodoptera frugiperda depende da renovação e da diversificação contínuas das ferramentas de manejo. No âmbito da transgenia, uma das frentes de pesquisa é a introdução de eventos que expressem proteínas com modos de ação distintos dos anteriormente utilizados.

O Brasil já conta com novos eventos analisados e aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que podem ampliar as alternativas para estratégias de rotação tecnológica. Entre eles está o evento EH913, desenvolvido em parceria público-privada entre a Helix Sementes e Biotecnologia Ltda. e a Embrapa.

O evento codifica a proteína Cry1Da, com mecanismo de ação distinto de proteínas Cry anteriormente utilizadas. Aprovado pela CTNBio em 2022, constitui um resultado de pesquisa com potencial de contribuição ao manejo de pragas, encontrando-se em expansão no segmento de milho forrageiro, e aguardando, para determinados usos e mercados, os respectivos requisitos regulatórios internacionais.

Outros eventos desenvolvidos por empresas do setor de biotecnologia também foram aprovados no País e podem contribuir para a diversificação de modos de ação e para estratégias de manejo de resistência. A diversificação tecnológica, entretanto, deve ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de manejo, não substituindo práticas como refúgio estruturado, monitoramento, controle biológico e rotação de modos de ação.

Para lavouras voltadas à exportação, a utilização comercial de determinadas tecnologias pode depender de requisitos regulatórios dos mercados importadores. Nesse contexto, estudos técnico-econômicos sobre segregação, rastreabilidade e organização logística podem contribuir para avaliar alternativas, considerando os requisitos regulatórios e comerciais aplicáveis nos diferentes mercados.

Nos últimos anos, também surgiram novas trajetórias tecnológicas para o controle de pragas e doenças. Entre elas, destaca-se a edição genômica, que reúne técnicas de biologia molecular capazes de promover alterações específicas no DNA. Ferramentas como CRISPR-Cas apresentam perspectivas de aplicação em plantas, bioinsumos e outras abordagens de manejo, embora diversas aplicações ainda necessitem de amadurecimento científico, tecnológico e regulatório antes de sua adoção em grande escala.

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Prioridades técnico-científicas para o manejo sustentável

 31254934488?profile=RESIZE_710xO manejo sustentável da Spodoptera frugiperda no Brasil requer abordagem integrada, capaz de preservar a eficácia das tecnologias disponíveis e contribuir para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. O aumento das intervenções químicas complementares observado em diferentes sistemas de produção reforça a importância da diversificação das ferramentas de controle e do fortalecimento das práticas de manejo de pragas.

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Rubens Augusto de Miranda (Pesquisador)
Embrapa Milho e Sorgo

Vinícius Pereira Guimarães (Pesquisador)
Embrapa Milho e Sorgo

Simone Martins Mendes (Pesquisadora)
Embrapa Milho e Sorgo

Frederico José Evangelista Botelho (Analista)
Embrapa Milho e Sorgo

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

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