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A pecuária de pequenos ruminantes no Brasil registrou novo avanço em seu efetivo, mantendo trajetória de crescimento, impulsionada pelos estados da Região Nordeste. Segundo análise do Boletim Nº 33 do Centro de Inteligência e Mercado de Caprinos e Ovinos (CIM), elaborado pelo pesquisador Klinger Magalhães com base na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM 2025) do IBGE, o rebanho ovino nacional atingiu 22,31 milhões de cabeças (crescimento de 1,55% frente a 2024), enquanto o rebanho caprino alcançou 13,52 milhões de animais (aumento de 1,2% em relação ao ano anterior).


O levantamento revela um incremento absoluto de 341.253 ovinos e 158.352 caprinos em relação a 2024. No período acumulado entre 2021 e 2025, as taxas médias de crescimento anual ficaram fixadas em 3,3% ao ano para a caprinocultura e 2,1% ao ano para a ovinocultura. No último biênio analisado (2024–2025), observou-se uma inversão na dinâmica de ritmo: a ovinocultura acelerou sua taxa de expansão, ao passo que a caprinocultura apresentou desaceleração no ritmo de crescimento.

“Na ovinocultura, é bem perceptível um aumento de demanda. Os frigoríficos, os abatedouros, estão mais atuantes e isso tem estimulado um interesse dos produtores em aumentar rebanho para atender essa demanda do mercado formal” avalia o pesquisador Klinger Magalhães. 

A distribuição regional dos dados da PPM 2025 confirma uma hegemonia do Nordeste na criação de pequenos ruminantes no país. Na caprinocultura, a região passou a deter 96,6% de todo o rebanho brasileiro (13,07 milhões de animais), tendo sido a única região geográfica do país a registrar variação positiva (1,4%) entre 2024 e 2025. 

As demais regiões brasileiras registraram retração, com destaque para a queda de 10,5% no Centro-Oeste. No Sudeste e no Sul, os rebanhos caprinos somam cerca de 133 mil cabeças cada (aproximadamente 1,0% do total nacional cada), sendo que no Sudeste a atividade está voltada principalmente para a produção de leite de cabra nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Na ovinocultura, o Nordeste expandiu sua participação para 75,8% do rebanho nacional (16,9 milhões de cabeças), com alta de 4,4% frente a 2024. Em contraste, a Região Sul — segundo maior polo ovino do país com 15,6% do efetivo (3,49 milhões de animais) — registrou uma retração de 8,6% em seu rebanho. A Região Centro-Oeste manteve estabilidade com 763,6 mil ovinos (3,4% do país), enquanto o Norte (648,5 mil cabeças) e o Sudeste (508,5 mil cabeças) registraram quedas de 3,3% e 4,8%, respectivamente.
 
“Podemos ver essa concentração de rebanhos no Nordeste como uma oportunidade, na medida em que a região será detentora de um material genético praticamente de todo o Brasil. Seríamos fornecedores, seja de genética, seja de animais para atender ao mercado nacional. Por outro lado, essa concentração pode também sinalizar um menor interesse de outras regiões pelos produtos, que não vejam mais a atividade econômica e o mercado como interessantes”, pondera Klinger.

De acordo com o pesquisador, há também, ainda, disparidades entre as regiões em termos de especialização da produção. Na avaliação dele, enquanto outras regiões do país, mesmo com rebanhos menores, conseguem investir em melhoramento genético e ter mais avanços na produção, o Nordeste, mesmo concentrando rebanhos maiores, ainda necessita de programas de melhoramento genético para ter rebanhos mais especializados.

Oportunidades de mercado e desafios de organização

O Boletim identifica algumas tendências promissoras para a cadeia produtiva. Uma delas é um crescimento na demanda consumidora por alimentos saudáveis derivados de caprinos e ovinos, tais como leites, queijos, iogurtes e carnes com menores teores de gordura. Além disso, identifica-se um mercado potencial não atendido para a carne caprina em restaurantes de padrão elevado em metrópoles das regiões Sul e Sudeste, em especial durante festejos tradicionais. 

Segundo Klinger, é perceptível uma movimentação de produtores rurais em alguns territórios do país para aproveitar estas oportunidades, por meio de uma melhor organização da produção. “Na Paraíba e Pernambuco, vemos uma especialização para a produção de leite e de queijo caprinos. Acompanhamos também produtores de ovinos no Piauí que têm conseguido se organizar e obtido uma rentabilidade interessante, com suas cooperativas fornecendo animais para frigoríficos, para abatedouros formais”, ressalta ele.

A análise do Boletim reforça, porém, que o tamanho atual do rebanho nacional ainda não é suficiente para atender, de forma contínua a demandas do mercado em quantidade e padronização. A superação deste gargalo depende, de acordo com Klinger, do investimento em tecnologias de manejo, capacitação técnica de produtores, políticas de estímulo à comercialização e fortalecimento das associações e cooperativas de criadores.

“O desafio é aumentar o rebanho, para atender a essas demandas. Isso tem que vir junto com o planejamento da propriedade em termos de produção de alimentos e composição genética. É importante pertencer a uma associação, a um grupo de produtores organizados e conectados com os compradores - abatedouros, frigoríficos. Inclusive, adotando práticas gerenciais para aferir ganhos, lucratividade, custos”, destaca o pesquisador.

Entraves e alerta climático do El Niño

Apesar do incremento nos números globais, o relatório do CIM/Embrapa pondera que os produtores rurais enfrentam entraves que pressionam a rentabilidade. Entre os principais gargalos relatados estão o aumento constante dos custos de produção (com o encarecimento de insumos como ração, medicamentos e combustíveis), além das perdas recorrentes decorrentes de ataques de predadores aos rebanhos e roubos de animais no campo.

Outra grande preocupação levantada pela análise refere-se ao cenário meteorológico, com os modelos climáticos apontando para a ocorrência de um episódio de El Niño de intensidade severa, entre 2026 e 2027. Este alerta reforça a importância do uso de tecnologias e orientações de manejo para minimizar possíveis impactos de seca ou temperaturas extremas durante o período.

Segundo Klinger Magalhães, a antecipação e o planejamento preventivo são estratégias fundamentais para combater a escassez de recursos hídricos e forrageiros na pecuária. “A implementação de soluções de última hora não garante resultados imediatos, tornando indispensável o uso antecipado de tecnologias e práticas recomendadas pela Embrapa, tais como cultivares de forrageiras resistentes à seca, uso de silagem, construção de barragens subterrâneas e elaboração de um orçamento forrageiro”, ressalta ele, que destaca também a importância do descarte orientado do rebanho (priorizando a venda de animais menos produtivos ou com problemas de saúde antes do período de estiagem), medida simples que ajusta a demanda animal à oferta disponível de alimento e assegura a sustentabilidade da produção.

Bahia lidera estados e Casa Nova (BA) é o maior polo municipal do Brasil

No ranking estadual dos rebanhos de caprinos e ovinos, a Bahia reafirma sua posição de maior produtora nacional em ambas as espécies. O estado abriga o maior rebanho ovino do país, com 5,99 milhões de cabeças e também o maior rebanho caprino, com 4,69 milhões de animais.

Em seguida, Pernambuco figura como o segundo maior produtor em ambas as modalidades, somando 3,86 milhões de ovinos e 3,27 milhões de caprinos. O estado do Piauí ocupa a terceira posição na caprinocultura (2,09 milhões de animais) e a quinta na ovinocultura (1,89 milhão). Juntos, Bahia, Pernambuco e Piauí concentram 74,4% de todo o rebanho caprino do Brasil. Por outro lado, o Rio Grande do Sul, terceiro maior rebanho ovino do país (2,68 milhões de animais), apresentou retração de 9,9% pelo segundo ano consecutivo. 

No âmbito municipal, o destaque cabe à cidade de Casa Nova (BA), consolidada como o maior município produtor do Brasil, tanto de caprinos (810,2 mil cabeças, alta de 3,9%) quanto de ovinos (713,5 mil cabeças, crescimento de 5,5%). Outros municípios de expressão no Vale do São Francisco e Sertão nordestino incluem Juazeiro (BA), Floresta (PE), Curaçá (BA), Petrolina (PE), Remanso (BA), Afrânio (PE) e Dormentes (PE).

O estudo chama a atenção para a perda de representatividade de polos tradicionais do Sul, como Sant'Ana do Livramento (RS), que caiu da 2ª posição nacional em ovinos em 2019 para o 8º lugar em 2025 (264,1 mil cabeças). Paralelamente, observa-se o fortalecimento de polos do interior nordestino onde a criação animal se integra a feiras, exposição, turismo rural e gastronomia local, movimentando a economia regional.

O Boletim nº 33 pode ser acessado clicando aqui

 
Adilson Nóbrega (MTB/CE 01269 JP)
Embrapa Caprinos e Ovinos
Contatos para a imprensa: caprinos-e-ovinos.imprensa@embrapa.br
Telefone: (88) 3112.7413
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