A Embrapa Gado de Leite reuniu, nos dias 25 e 26 de agosto, em Juiz de Fora (MG), 212 participantes de 16 estados brasileiros para o Workshop "Desafios para o Leite Brasileiro nos Próximos Dez Anos". O evento integra o calendário comemorativo dos 50 anos da Unidade e reuniu produtores rurais, lideranças cooperativistas, indústrias laticinistas, setor de máquinas e equipamentos, produtores de sementes, empresas de assistência técnica e extensão rural (Ater), gestores governamentais e representantes da comunidade acadêmica e científica.
Ao todo, cerca de 50 instituições ligadas à cadeia produtiva do leite estiveram representadas, além de representantes de 13 Unidades Descentralizadas da Embrapa, espalhadas pelas cinco regiões do país. O encontro contou ainda com a presença do diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Clênio Pillon, e da diretora de Inovação Social e Transferência de Tecnologia, Ana Margarida Euler, que participaram da abertura dos trabalhos.
Em sua fala na abertura do evento, Clênio Pillon destacou o caráter estratégico da discussão para o conjunto de públicos que hoje dialogam com a Embrapa: "Esta é uma agenda estratégica pra todos nós porque temos procurado dialogar fortemente com todos os nossos públicos, que vão além do agricultor, da assistência técnica e da extensão rural. Atendemos agroindústria, as empresas de rastreabilidade de certificação, os formuladores e executores de políticas públicas, o sistema de financiamento da produção agrícola e pecuária, as empresas que trabalham com seguro agrícola”. Segundo Pillon, os diversos setores que compõem o agronegócio estão ávidos pelas entregas feitas pela Embrapa.
Debates – O primeiro dia do evento foi dedicado ao tema "Visão de Futuro: onde estará a pecuária leiteira em 2035?", o consultor Airton Spies (Spiesagro) abriu os trabalhos com a palestra magna "O mundo do leite em 2035: tendências globais e impactos para o Brasil". Na sequência, produtores, indústria, pesquisa e cooperativismo debateram os principais desafios da próxima década, com a participação de Maurício Silveira Coelho (Fazenda Santa Luzia), Gustavo Silva Almeida e Bruno Castanheira (Laticínios Tirolez), Glauco Rodrigues Carvalho (Embrapa Gado de Leite) e Sebastião Vilanova (Cooperoeste-SC), sob mediação do chefe-adjunto de P&D da Embrapa Gado de Leite Bruno Campos de Carvalho.
À tarde, teve início a dinâmica de construção de cenários, com a apresentação da consulta pública realizada entre junho e julho — que mapeou 24 desafios do setor em cinco eixos temáticos — e o início dos trabalhos em grupo.
No segundo dia, Marcelo Pereira de Carvalho (MilkPoint Ventures) provocou os participantes com a pergunta "O que está mudando no leite enquanto estamos ocupados com o dia a dia?", antes da continuidade das atividades em grupo. À tarde, os participantes sintetizaram as discussões e priorizaram os temas mais urgentes, culminando no lançamento da proposta de criação da Rede de Pesquisa, Desenvolvimento e Transferência de Tecnologia em Leite, apresentada pelo chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Leite Rui da Silva Verneque.
Cinco desafios prioritários
O resultado das discussões dos grupos de trabalhos foram submetidos à análise PEST (política, econômica, social e tecnológica) e à Matriz GUT (gravidade, urgência e tendência), os dez temas mais debatidos no workshop foram reduzidos a cinco Desafios Prioritários Nacionais para a cadeia do leite na próxima década, que compõem a Carta de Juiz de Fora*:
1 – Elevados custos de produção e baixa rentabilidade da atividade leiteira;
2 – Escassez de mão-de-obra qualificada e dificuldade de retenção de trabalhadores;
3 – Degradação de pastagens, com baixa taxa de lotação e redução do valor nutritivo do pasto;
4 – Falta de planejamento forrageiro, insegurança alimentar do rebanho e sazonalidade da produção de forragens;
5 – Uso ineficiente dos recursos hídricos e risco crescente de escassez de água nos sistemas de produção.
(*Leia uma síntese da Carta de Juiz de Fora ao fim dessa reportagem.)
Além da Carta de Juiz de Fora, um dos principais desdobramentos do workshop foi o lançamento formal da Rede Leite, iniciativa interinstitucional que pretende conectar competências e estruturar projetos cooperativos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). A rede será conduzida por um Comitê Gestor paritário, com representantes das cinco regiões do país — Embrapa Clima Temperado (Sul), Embrapa Pecuária Sudeste (Sudeste), Embrapa Cerrados (Centro-Oeste), Embrapa Semiárido (Nordeste) e Embrapa Amazônia Oriental (Norte) —, além de coordenação central formada pela Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DEPD) e pela Embrapa Gado de Leite, responsável por organizar uma secretaria de apoio à iniciativa.
Entre as frentes iniciais de atuação estão a harmonização de bancos de dados da cadeia leiteira, o mapeamento de competências institucionais, o levantamento contínuo de demandas regionais e a promoção mensal de debates técnicos virtuais sobre temas estratégicos.
Carta de Juiz de Fora: os compromissos assumidos
Como síntese de dois dias de trabalho, os participantes aprovaram e assinaram a “Carta de Juiz de Fora”, manifesto de compromisso da Embrapa Gado de Leite e de lideranças setoriais com os desafios estratégicos da cadeia produtiva do leite entre 2026 e 2036. O documento foi lido na sessão de encerramento pelo chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, José Luiz Bellini Leite.
Entre os compromissos assumidos estão:
- Estruturar e operacionalizar a Rede Leite, com a instituição do primeiro Comitê Gestor regionalizado;
- Elaborar e difundir um Documento Síntese Setorial, consolidando os diagnósticos e vetores de solução identificados no workshop;
- Promover o compartilhamento de dados abertos, com repositórios integrados de informações científicas, indicadores econômicos e métricas de sustentabilidade;
- Fortalecer a comunicação e a integração entre produtores, indústria, governo e academia;
- Fomentar parcerias pré-competitivas entre o setor público e o privado para o desenvolvimento de tecnologias de base;
- Apresentar a proposta da Rede à Diretoria da Embrapa para aprimoramento, além de discutir quatro projetos comissionados pela Diretoria em articulação com a Plataforma do Leite, proposta pelo diretor Clênio Pillon.
Ao encerrar o evento, Bellini avaliou positivamente os resultados dos dois dias de trabalho: "O workshop foi um grande sucesso e é importante que eventos como esse ocorram periodicamente para que possamos manter a cadeia produtiva unida frente aos grandes desafios do setor."
Com a Carta de Juiz de Fora assinada, a Embrapa Gado de Leite e as instituições parceiras passam agora a estruturar a Rede Leite e a consolidar o Documento Síntese Setorial, que deve servir de referência para políticas públicas e investimentos privados voltados à pecuária leiteira nacional na próxima década.
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